De repente abriu aquele sorriso, como há muito tempo não fazia. Correu, pegou uma tesoura e cortou a carta com todo o cuidado, ainda deu aquela olhadinha contra a luz para se certificar de onde cortar. Rapidamente, abriu e devorou seu conteúdo como se estivesse à beira da morte e ali, naquela carta, estivesse todo o alimento necessário para sua sobrevivência.
Então o sorriso persistiu em seu rosto, fixado, fez questão exibí-lo. Não era à toa, acabara de receber uma carta que mudaria sua vida: um convite e uma passagem de avião. Só de ida. Com o futuro em suas mãos, não pensava em outra coisa a não ser fazer sua mochila, colocá-la nas costas e partir. Nada poderia prendê-la.
Pensando em tudo; no frio, na força de vontade, na luta para “sobreviver” e até na hipótese de ficar sem lugar para dormir, ela aceitara tudo e não recusara esse convite de sua melhor amiga para ir à Europa. De mochileira, como sempre sonhara. Só teria que passar por cima de seus pais, conservadores, que acham mais importante estudar sentada numa cadeira ouvindo o professor do que vivenciando uma experiência única.
Não era uma das melhores alunas, mas esforçada. Depois de alguns tombos tomara vergonha na cara e então, começara a estudar como nunca, disposta a mostrar do que era capaz. Mas quem ela realmente era nunca teve a oportunidade de mostrar: uma menina que queria viver na aventura, ajudando aos outros e dependendo da ajuda deles também. Uma troca justa. Gostaria de provar que nem tudo na vida é gerado em torno do dinheiro, mas na sociedade atual era praticamente impossível.
Então decidiu: falaria com seus pais logo pela manhã, bem cedinho, dando tempo para eles pensarem e se organizarem. Aliás, organização não era seu forte, era necessário pensar com calma para que tudo desse certo. O que falar com seus pais? O dinheiro pagaria sua hospedagem por 10 dias. Difícil eles aceitarem.
Com 22 anos, respeitava mais que tudo aos seus pais. Eles a criaram de uma forma que só tens a agradecer. Por mais que financeiramente independente, ainda moravam juntos e satisfação se fazia necessária para uma boa convivência. Trancar a faculdade, abandonar o emprego e ir em busca de algo para aprender em outro país, do outro lado do oceano, não é tão simples.
Acordou com receio, mas foi, com toda sua paciência, dar a notícia para eles. A princípio, lutaram contra essa idéia julgada maluca por eles mesmos, mas viram que não havia mais jeito. Desde os 18 anos falando sobre isso, não teriam como segurar essa menina em casa.
…
Liga para a amiga, corre, pega a escova de cabelo para colocar na bolsa, junto com a manteiga de cacau, corre, olha a passagem. No relógio, 16h30min, estava atrasada. Encontrou-se com sua amiga na porta do aeroporto e até fotos tiraram. Felizes, agora as duas, cada uma com o seu sorriso, mas aquele sorriso único. De um sonho se realizando.
Embarcaram…
Esse texto já foi postado no meu blog antigo, mas continua sendo muito válido.